Mental

Empresas olham para a saúde mental do funcionário

Os transtornos comportamentais e de saúde mental já são a terceira causa de afastamento de trabalhadores no Brasil. Foram mais de 9 mil afastamentos do tipo em 2017, segundo a Secretaria da Previdência – último dado disponível. Levantamento da instituição realizado entre 2012 e 2016 mostrou que 9% dos auxílios-doença e aposentadorias por invalidez desse período foram gerados por transtornos mentais e comportamentais.
O mesmo estudo também mostrou que a depressão é a principal causa de pagamento de auxílio-doença não ligado a acidentes, com 31% dos casos. “Esse números podem ser bem maiores, porque as doenças são subnotificadas, pois existe preconceito nas empresas e dos profissionais em dizer que são portadores de doenças psíquicas”, diz Anderson Sant’Anna, professor da Fundação Dom Cabral (FDC) e especialista em comportamento organizacional.

Globalmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão e 260 milhões vivem com transtornos de ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estimativas da instituição afirmam que os dois distúrbios custam à economia US$ 1 trilhão ao ano em perda de produtividade.

Para Sant’Anna, algumas razões levam tanto aos transtornos em si quanto às subnotificações. Uma delas é o mito da felicidade, um ideal romântico de que todos precisam estar bem o tempo todo. Outra está ligada ao modelo de gestão adotado na grande maioria das empresas, onde é preciso demonstrar força e motivação constantemente para atingir metas, alcançar a excelência, ser produtivo e jamais adoecer.

A OMS completa a lista informando que alguns dos principais fatores de risco para a saúde mental de trabalhadores são assédio e bullying, excesso de trabalho, jornadas inflexíveis e ameaça de desemprego. “Não poder demonstrar fragilidade faz com que os profissionais procurem médicos sem o conhecimento da empresa ou recorram a automedicação”, diz Sant’Anna. “Como o indivíduo não pode mostrar fraqueza, ele se anestesia.”

O quadro preocupa tanto o Estado quanto as empresas, e algumas delas têm oferecido algum tipo de suporte aos funcionários em questões ligadas à saúde mental. Levantamento da Mercer Marsh Benefícios mostrou que, em 2016, somente 34% das empresas investiam em programas ligados à saúde mental. Enquanto 28% analisavam dados relacionados ao tema, mais de 90% analisavam indicadores de saúde física. Em 2017, 41% investiam em saúde mental e 9% pretendiam implementar algo nessa linha.

A Unilever é uma empresa que já oferece apoio para a saúde mental de seus funcionários. O programa de bem-estar da companhia engloba diferentes do ser humano: Físico, mental, emocional e de propósito.”Entendemos que o ser humano, quando está bem holisticamente, traz resultado para a organização”, afirma Luciana Paganato, vice-presidente de RH da Unilever.

Além de programas de ginástica e de prevenção a doenças crônicas, a Unilever oferece apoio psicológico para os funcionários. “Percebemos, em um determinado momento, que as patologias físicas estavam em total controle e que as pessoas estavam migrando para estresse e transtorno de ansiedade. Foi aí que incluímos ferramentas que podem ajudar o colaborador a lidar, de forma rápida, com essas questões”, explica Elaine Molina, médica responsável pelo programa da Unilever.

Sempre que um funcionário sente necessidade de apoio psicológico, além de financeiro ou jurídico, pode procurar a área de saúde da empresa ou ligar para um telefone destinado a esse fim. A partir daí é dado o encaminhamento mais adequado, que pode ser um acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, entre outras possibilidades. Um dos programas oferecidos, o Biofeedback, realiza cerca de 400 sessões por ano. Em 2019 foram 38 pessoas atendidas até agora.

Na mesma linha, e para apoiar a saúde mental das equipes, a Unilever também oferece sessões de meditação na sede da companhia, em São Paulo, duas vezes por semana. A Unilever tem 12 mil funcionários no Brasil, sendo 1.500 no administrativo.

A Portonave, empresa de serviços portuários de Santa Catarina, também passou a olhar a saúde de seus funcionários de forma mais ampla. Baseada no modelo da OMS para ambientes de trabalho saudáveis, há quatro pilares de atuação: ambiente físico do trabalho, ambiente psicossocial, recursos pessoais no ambiente de trabalho e envolvimento com a comunidade. Em cada um dos pilares há ações específicas.

No pilar chamado ambiente psicossocial, há um programa de apoio psicológico e outro de gerenciamento de estresse para gestores. As ações começaram porque o médico do trabalho da empresa foi identificando demandas em relação à saúde emocional, como ansiedade e depressão. Hoje, quando o funcionário tem alguma necessidade ligada à saúde mental, procura o centro de saúde da companhia e recebe o encaminhamento necessário, que pode ser, por exemplo, a indicação de psicoterapia coberta pelo plano de saúde da companhia.

O programa começou informalmente em 2013 e no ano seguinte entrou no programa de saúde e bem-estar da organização. Levou um certo tempo até que os funcionários se sentissem à vontade para usar o benefício. “Os colaboradores viam que não havia nenhum tipo de punição por procurar o serviço, mesmo em casos de afastamento, e compreenderam, então, que a empresa olha para o colaborador de forma integral. Assim foram ganhando confiança em procurar o auxílio”, explica Candice Ana do Nascimento, psicóloga que coordena o programa Saúde em Equilíbrio na Portonave. “Esse ambiente que permite às pessoas mostrar sua vulnerabilidade foi construído no decorrer dos anos e, por outro lado, a empresa entende que um colaborador emocionalmente saudável produz mais e se engaja mais.”

No programa de gerenciamento de estresse para gestores, nove profissionais foram diagnosticados com algum nível de estresse em 2016, ano em que a ação começou. Em 2017, foram três. Hoje, nenhum. “Trabalhamos nas pessoas a autorresponsabilização. Sem isso, não adianta a empresa querer que eles mudem”, explica Candice.

O programa trabalha a inteligência emocional, disponibiliza técnicas de meditação, aborda a importância de uma alimentação equilibrada e da prática de atividades físicas. No total são 10 meses de programa, com encontros mensais de duas horas. “Focamos nos gestores porque são eles que recebem o maior nível de pressão, e a forma como filtram isso faz diferença na gestão das equipes”, explica Candice. “Entendemos que trabalhando com supervisores e gerentes teríamos, por consequência, funcionários mais saudáveis.”

Helder Valério, líder de gestão e promoção de saúde da Mercer Marsh Benefícios, explica que a atenção crescente das empresas a questões de saúde mental deve-se, principalmente, ao tempo de afastamento ocasionado por transtornos como depressão e ansiedade. “Quando se olha o sinistro, vemos que a saúde mental ainda deve-se, principalmente, ao tempo de afastamento ocasionado por transtornos como depressão e ansiedade. “quando se olha o sinistro, vemos que a saúde mental ainda não tem um grande impacto no plano médico, que é onde as empresas normalmente focam sua atenção. Mas quando se olha o absenteísmo relacionado aos transtornos mentais e comportamentais, o afastamento chega a ser três vezes maior que em outros grupos “, explica Valério. “Então, ao olhar o todo, as empresas veem que saúde mental tem impacto forte em produtividade.”

Dentro das organizações, o apoio mais comum nessa área, segundo Valério, é o Programa de Assistência ao Empregado (PAE), que disponibiliza um número de telefone para o funcionário ligar quando sentir necessidade e oferece apoio psicológico, jurídico e financeiro. Uma pesquisa feita com apoio da Mercer no Reino Unido em 2018 mostrou que, para 34% dos entrevistados, os problemas financeiros contribuíram para afetar a saúde mental. “É importante não trabalhar a saúde mental de forma isolada”, diz Valério.

Na Optum, fornecedora desse tipo de serviço do grupo UnitedHealth, dos 30 mil atendimentos feitos em 2018 através do PAE, 40% abordaram questões de cunho emocional, como estresse, ansiedade e depressão. Além da oferta do PAE, também vem crescendo, segundo o consultor da Mercer, o apoio para os funcionários fazerem psicoterapia.

A Koin, fintech de meios de pagamento, começou a oferecer sessões de psicoterapia dentro do escritório no ano passado. A ideia foi sugestão dos próprios funcionários, e surgiu em uma pesquisa interna. Após fechar parceria com uma clínica, o RH da Koin organizou uma palestra para desmistificar o tema. “Explicamos para que serve, por que as pessoas fazem e abordamos como a terapia leva ao autoconhecimento, que ajuda a evoluir pessoal e profissionalmente”, afirma Carolina Mattos, gerente de RH da Koin.

Desde então, dois terapeutas vão ao escritório da startup duas vezes por semana e fazem os atendimentos em uma sala durante o expediente. “Não tem desconto de banco de horas e o RH não tem acesso a nenhuma informação. É tudo direto com a clínica”, diz Carolina. Dos 70 funcionários da Koin, 18 utilizam o serviço. Não há custo nem para a empresa nem para o funcionário, já que o convênio médico cobre as sessões de psicoterapia.

A Resultados Digitais, com escritórios em São Paulo e Santa Catarina, também passou a oferecer psicoterapia para seus funcionários recentemente. Para isso, a empresa fez uma parceria com a Vittude, plataforma que permite fazer as sessões on-line, e subsidia metade do valor das consultas. “A empresa tem uma preocupação integral com os funcionários e entendemos que o desenvolvimento das pessoas vai além das competências cognitivas ou comportamentais. O desempenho também passa por bem-estar físico e emocional”, afirma Anderson Nielson, diretor de gestão de talentos da Resultados Digitais.

No segundo semestre de 2018, 30% dos 680 funcionários usaram o serviço ou procuram a consultora interna de saúde da empresa. Para incentivar que a equipe use o benefício, o RH estimulou que os líderes que já fizeram terapia contassem sua experiência para o time.

Na Vittude, o serviço para empresas foi lançado há pouco mais de um ano e representa cerca de 10% do faturamento. “Imaginamos que vai representar 80% do faturamento”, diz Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude. “Como não se falava de atividade física 20 anos atrás, hoje ainda se fala pouco de saúde mental. As empresas acham que está tudo lindo, mas não está. É só ver os afastamentos por transtornos mentais. E como nunca se pensou nisso, as empresas ainda não têm orçamento para o tema, então temos que defender o retorno de investimento financeiro nesse tipo de serviço”, explica a empreendedora. Um estudo da OMS mostra que para cada US$ 1 gasto com saúde mental há um retorno de US$ 4 para a empresa, com diminuição de turnover e absenteísmo e aumento de produtividade.

Para Valério, da Mercer Marsh Benefícios, é preciso um trabalho forte de comunicação por parte da empresa para que os funcionários superem o estigma associado a transtornos mentais ou comportamentais e realmente usem o benefício de psicoterapia oferecido pelas companhias. “É papel da empresa garantir que o colaborador se sinta apoiado e com segurança para pedir ajuda, e isso passa por um treinamento da liderança. Um líder preparado e atento vai abordar o colaborador, entender o que está acontecendo e direcioná-lo.”

 

Fonte: Valor Econômico

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